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sábado, 8 de dezembro de 2012

Linha da vida

- Quem sabe sua linha da vida não seja das melhores - falou o terapeuta.

- Minha linha o quê? Tipo aquele negócio que se lê pela mão? - perguntei, confuso.

- É um outro conceito de linha da vida, Joe. Ok, isso não é nada que um terapeuta normal acredite, mas vamos lá - ele disse - Vou lhe explicar.

O "ele" em questão era o meu terapeuta, dr. Red. Devia ter cerca de quarenta e sete anos, tinha a barba semifeita e um olhar sério e extrovertido ao mesmo tempo. Deitado em seu divã pela terceira vez - segunda só naquele mês - eu só podia ler seu crachá e descobri que o nome dele não era "dr. Red", mas sim, dr. Andrews Red.

- A linha da vida na qual acredito - começou - É uma teoria que afirma que cada um tem seu destino traçado antes mesmo de nascer. No ventre de uma mulher, pode estar um bebê que vai nascer e, algum tempo depois, vai morrer ou pode, ainda, estar o próximo gênio das ciências. A sua história completa e até mesmo seu desfecho estarão no seu livro, página por página, letra por letra, ação por ação.

- E quem é o autor de cada um desses livros? - perguntei, me interessando pela tese de Red.

- Você mesmo - disse, tranquilamente, respondendo minha indagação - A teoria se sustenta na hipótese de que, antes de sermos gerados, escrevemos nosso livro (seja ele o livro abandonado das estantes ou o best-seller do ano pelo NY Times). Os personagens são naturalmente encaixados.

- O que o senhor está tentando me dizer - tentei entender - É que a vida já é predestinada? Tudo o que eu fizer, até o dia de minha morte, será previsível e clichê?

- Basicamente - concordou Andrews.

Saí de minha zona de conforto - de estar deitado no divã - e me sentei para raciocinar um pouco melhor. E se fosse verdade? E se cada vontade minha for em vão? E se nunca tivesse sido necessário me esforçar porque eu chegaria no mesmo lugar? E se eu estivesse divagando no divã de dr. Red enquanto a vida ao meu redor simplesmente acontecia conforme o script?

Não, não podia ser. Mas já que ele perguntou, descrevi minha vida - com comentários próprios e opinativos dessa vez, como ele pedira. Sobre como foi minha infância e como eu odiava ser o esquisitão anti-social da família. Sobre como eu era no colégio e odiava todos e principalmente a matemática. Sobre minha primeira namorada que não aguentou duas semanas e fugiu do país e sobre quantos idiomas diferentes aprendi só para xingá-la. Sobre o porquê de eu estar ali naquele instante por mais que eu jamais houvesse gostado de médicos, terapeutas, dentistas e cirurgiões plásticos desde que minha mãe voltou para casa com duas toneladas a mais de seios e três a mais de nádegas.

- Diga, Joe. Diga pra mim. Oh. espere, primeiro feche os olhos. Isso, assim, e não abra - dr. Red colocou uma música com um ritmo contagiante. Se eu não estava enganado, aquilo era um ritmo brasileiro chamado samba - Ouve este ritmo contagiante? Pois bem. Você irá me dizer o que vê em seus sonhos mais animadores. Como é o Joe Thompson Lee que você vê nos seus sonhos?

Divaguei. Fiquei perdido entre devaneios, fantasias e algumas orgias - tendo em vista a quantidade de calcinhas que flutuavam durante a viagem espiritual que eu estava fazendo - e, depois de poucos minutos, me abri.

- Uma casa pequena no Havaí - comecei. - Eu, minha esposa e duas crianças. São dois meninos. Um é a cara da mãe. O mais novo é a minha. A mãe deles é deslumbrante. Seu sorriso brilha mais que o sol havaiano radiante sobre as ondas do mar.

Dr. Red apenas assentiu:

- E o que você vê quando abre os olhos, Joe? Qual é a vida que você tem?

- Caos - falei, sem pensar muito - Vida urbana. Stress. Crises de meia-idade no auge dos meus vinte e cinco anos. Eu não quero morrer aos cinquenta, doutor. E sou só. Nada de esposas e nem filhos. Eu mal posso ver o sol, quem dirá então as ondas havaianas...

Dr. Red largou sua prancheta por instantes. Olhou para o teto fixamente por instantes. Depois, pegou novamente suas anotações e me convidou para que eu me sentasse a sua frente em sua mesa.

- A psicologia diz uma coisa, minhas teses apontam outra - disse dr. Red - O que você quer ouvir?

- Os dois, se possível, doutor - respondi.

- Muito bem - ele se ajeitou na cadeira e limpou a garganta - Os estudos que vêm de anos feitos por nerds sem vida social alguma e muito menos diversões pós-trabalho lhe dizem: ei, arrume uma namorada, tenha filhos, tente outro emprego... e se nada der certo, vire surfista no Havaí!. Eu não. Não como adepto da tese da linha da vida. Eu diria para você esperar. Esperar até ver a garota dos seus sonhos passeando na vida. Enquanto isso, dedique-se ao seu trabalho, sim, mas sem muitos esforços.

- Por quê? - perguntei, olhando meu relógio e vendo que só tinha mais cinco minutos.

- Bem - ele falou - Se você sair na busca pelo amor de sua vida ou ficar esperando, vai dar no mesmo. Alguém vai aparecer, no fim das contas. Uma hora ou outra. Se é o seu destino, vai acontecer. Se não é, nem mil bares e clubes vão ajudar. Seu trabalho? Você pode ser promovido ou não. Quem é que sabe o seu destino? Mas não vacile se quiser tirar umas boas férias com seus filhos no Havaí. Se é que isso está na linha...

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