Já não combino mais comigo mesmo. Sou o oposto de quem fui ontem. Mantenho-me em constante mudança. Sigo um ritmo frenético, buscando alcançar algo utópico. Mas não ligo. Continuo. Sem sequer saber a quê. Continuo a continuar, talvez. Ou continuo a descontinuar.
Já não faço o mesmo caminho. Ontem fui pela principal, hoje fui por um atalho. Não corro e nem ando devagar. Ou corro. Ou ando devagar. Ou ando de ré. Ou sequer ando. Sabe-se lá quantos caminhos traço por dia, por período, por hora. Sabe-se lá quantos caminhos essa vida tem.
Já não sei o que sabia. E, da mesma forma, já sei o que não sabia. Minha mente é um campo de guerra, com trincheiras de neurônios vazios e armamentos letais. Onomatopeias sangrentas incendeiam meu cérebro e me causam uma dor que jamais senti tão intensa.
Já não sei dos meus sentimentos. E já não sei também das sensações e gostos. Já amo os vilões e planejo a morte dos mocinhos ou quaisquer heróis. Já amo chuchu e odeio lasanha. Já começo a chorar de medo nas comédias românticas e rir de agonia nos melodramáticos.
Já não sou mais eu. Nos meus escritos, minhas ações. No meu espelho. Já
não sou eu quem falo, já não sou dono da minha voz. Não me visto como
ontem e nem como amanhã. A minha liberdade é solitária e, se estou só, sinto-me preso.
E, por não ser mais eu, já reconstruo quem sou. E, de tanto reconstruir-me, viro um ser mutante, uma criatura social, um andarilho perdido no tempo e no espaço. E, a cada reconstrução, acabo destruindo-me para realizar uma ou outra mudança. E, mudando, assassino a mim mesmo.
E, por estar morto, já não tem mais cabimento eu saber sobre mim mesmo. Morri, sim, mas ainda estou à minha procura, visto que me perdi sem jamais ter me achado. Estou correndo atrás de um alvo-fantasma. Sei que procuro, mas não sei o quê.
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