A meia-noite já se foi faz um tempo, mas a noite ainda está quente. O que é perceptível não só pelo suor dos outros passageiros daquele coletivo da madrugada, como também pelos meus óculos embaçados.
A solidão vem à tona. Milhares de pessoas dormem e imagino-as, uma a uma, conforme anda a condução. Pode ter sido depois de um dia corrido, onde os pais trabalharam, o filho mais velho estudou e a caçula ficou em casa com a avó. E todos estão dormindo, no fim das contas. Ou pode ser um casal recém-unido pelo matrimônio que já não se suporta mais, mas dormiram, ainda assim, juntos.
Limpo os óculos, esfregando-os junto à minha camisa com uns dizeres revolucionários, citação de uma banda que já se acabou há tempos, por droga, esquecimento ou perseguição.
Um passageiro dá o sinal. O motorista para e, atento, olha para trás no instante em que abre a porta. Ainda fita o passageiro até que ele atravesse a rua para, só depois, fechar as portas e continuar o longo trajeto.
Conforme o recém-descido caminha, tão livre e inseguro, nas calçadas eu vou também deixando de vê-lo e pedindo ao universo que o proteja. Não, sequer o conheço, mas ele está sempre na condução e, você sabe, a gente sempre espera pelo melhor. Fico fantasiando a milésima história sobre ele: é um recém-divorciado chamado Antônio que foi deixado pela mulher que viajou com um colombiano, o amante Juan, para os Estados Unidos em busca de uma vida que Antônio jamais proporcionaria. E dorme o amargo Antônio.
Eu sempre sou o último a descer. Antes de mim descem - hoje - Samira, Aderbal e José Paulo. Um casamento de fachada, um viúvo e um jovem universitário que, ao chegar em casa, vê os pais brigando. Mas todos acabam dormindo.
Chega a rua do lado da minha. Desço. Caminho uns poucos metros. Vejo andarilhos, felizes e tristes, em seus delírios madrugais. Caminho mais. Ouço poucas vozes e fantasio mais famílias tradicionais ou progressistas e gente jovem feliz ou triste reclamando de Brasília, do programa da TV, do emprego ou da tia fofoqueira.
Chego em casa. Não tem carta hoje. Tiro a chave do bolso. Abro a porta, mas entro correndo e já chaveio em seguida. Tomo um banho rápido. Como algo que tenha sobrado de qualquer dia. Bebo um pouco de whiskey enquanto vejo o noticiário da madrugada.
Desanimo da realidade. Desligo a TV. Bebo o último gole daquele whiskey barato. Vou me deitar.
Volto a fantasiar.
Até a mais deprimente história inventada sobre um passageiro, vizinho, parente ou conhecido do dia traduz algo mais composto e completo que qualquer dos meus dias.
E o ciclo vai se reiniciando enquanto vou criando minhas estórias.
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