Não são pontuais os motivos de minha tristeza. Não consigo citá-los de forma adulta, sem parecer patético. Sinto-me em relação a isso como se cada problema fosse um mero tijolo, que não fui capaz de quebrar e, ao cair em mim mesmo, vi que estava cercado por uma mansão escura e tenebrosa.
Palavras, ações, coincidências. Todo gesto pequeno e fútil cai sobre mim como um enorme muro desmoronando - porque não cabe mais nenhum tijolo.
Já não é a primeira noite que me vejo numa bipolaridade cruel, entre chorosas lágrimas e risonhas gargalhadas. Não, é só mais uma. Mas a cada noite, são mais tijolos para elencar numa lista de coisas que não suporto mais.
Se essa lista existisse, seria maior que lista telefônica de metrópole. Pessoas, lugares, músicas, gestos, ações, autores. Cada um destes tijolos teria seu devido espaço, com seu merecido tamanho. Uns, porque me irritam em demasiado, teriam uma página inteira - ou mais. Outros, um pequeno espaço. Mas, você sabe, cada tijolo faz diferença numa construção.
A noite avança e o sono continua distante. Em minha mente, a pergunta: será que cada um tem os tijolos que merece? Se sim, ouso ainda questionar: pareço-me com um armazém de materiais de construção?
Não vou dormir esta noite. Se estou chateado? Obviamente. Os tijolos em si não são lá tão pesados. No entanto, carregá-los como venho carregando - de milhares em milhares - cansa os músculos. Da mente, do corpo, do coração. Coração tem músculo? Não sei. Não importa. Músculo me lembra de força. Que é o que meu coração ultimamente mais precisa e menos tem.
Boa noite, tijolos do muro da minha vida. Procurem diminuir. De intensidade, de tamanho. Procurem sumir.
Ou que alguém destrua a droga do meu muro. Não ligo.
Na verdade, ligo sim.
Mas estou esgotado em demasia para tentar impedir qualquer atentado ao muro alheio.
Boa sorte, construtoras que demolem o muro alheio.
Nota mental: com a sorte que tenho, o máximo que pode acontecer é interditarem meu muro. Infiltração, terreno irregular, não faço ideia. Consequência? Tentarão arrumá-lo e estragarão ainda mais.
É isso - ora, que coincidência! - que os psicólogos, psiquiatras, terapeutas e remédios para insanidade fazem.
Dica, queridos familiares e amigos (leia-se: estimados tijolos) deste muro que tanto anseia por uma solução vinda de uma dimensão paralela, do futuro ou mesmo de sorte: evitem procurar por erros demais neste muro. O pobrezinho está acabadérrimo e não suportaria uma ainda maior perda de autoestima. Pior: colocar muros semi-caídos em divãs ou dar-lhes Gardenal não adianta, como já falei.
Ah! E aos vândalos: não pichem meu muro! Exceto se for grafite com ideais revolucionários. Quem sabe uma revolução não acontece nesse diabo de muro despedaçado?
Agora sim, boa noite. Eis que um gato mia e caminha - seu rabo tremendo de frio e incomodando meus tijolos superiores, suas patas com unhas afiadas cortando o que resta de mim - sobre mim. Não conseguirei mais (d)escrever absolutamente nada.
A dúvida que me ocorreu agora - muros escrevem desde quando? - fica para uma próxima noite a ser (mal-)dormida.
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